quarta-feira, agosto 27, 2008

Uma História de Medo




Sem medo


Na terra onde moro, há um homem que é uma personagem de romance. É um homenzarrão, de pés enormes, estatura imponente e negro como um tição. Chama-se Semedo e anda aí pelas ruas numa carrinha vermelha que ainda deve ser uma parente afastada das “furiosas Hiaces” que fustigam as ilhas de Cabo Verde, fazendo o serviço de táxis comunitários ou de miniautocarros. No caso do Semedo, a carrinha dele serve-lhe apoio no seu trabalho.
O Semedo é um cabo-verdiano de Santiago, já muito bem adaptado a esta terra ribatejana. Frequenta os cafés, fala com a população, conhece toda a gente, é uma simpatia. Hoje, dando-se finalmente o acaso feliz de eu trazer vestida uma t-shirt com o mapa de Cabo Verde, uma das relíquias que trouxe dos meus três anos passados lá, chegámos finalmente à conversa que há tanto me apetecia.
O homem é de S. Jorge de Órgãos, terra que deve o seu nome a uns rochedos que se assemelham aos tubos de um órgão de igreja. Passei lá várias vezes, em viagem entre a cidade da Praia e o Tarrafal. Referi-lhe um pormenor desse trajecto que ele confirmou: de lá, da terra dele, quando vamos para o Tarrafal, vemos à nossa esquerda o pico do vulcão do Fogo a flutuar num ninho de nuvens. Na altura, esse detalhe impressionou-me pois era à ilha do Fogo que eu chamava “casa”.
O Semedo é o Coveiro de cá e já começou a fazer parte do espírito jocoso desta gente, que em conversas sobre a vida, não se escusa a fazer referências a este homem:

_”Eu não vou a funerais, só hei-de ir ao meu, e isto se o Semedo for mais teimoso que eu!”
- "O Semedo, com aqueles pés grandes, quando me calcar a terra em cima, vai-me partir as costelas!”

- Escondam-se!!! Vem aí o Semedo e parece mal disposto!" - (esta é particularmente inverosímil, pois o coveiro anda sempre bem disposto, como é típico dos Cabo-verdianos).

No entanto, ele próprio alimenta e apimenta este espírito de brincadeira com uma mestria de fazer inveja:
Ele apresentou-se assim:

-“ Eu sou o Semedo, aqui todos me conhecem… até os cães! Só não sei porque fogem de mim… hehehehe”

O que eu acho mais divertido nesta história é o facto de o nome dele, “Semedo”, propiciar um trocadilho tão apetecível como “”sem medo”.
Dizia-me há dias um ribatejano, agricultor, criador de vacas e dono de ceifeiras e outras máquinas afins, que, pelo que percebi, deve ser filósofo-poeta nas horas vagas:

-“Eu queria olhar para o Semedo sem medo…mas ainda é cedo...”

Escrevo este último parágrafo algum tempo depois de ter escrito o texto inicial.
O Semedo, homem nascido em 1947, aparentemente forte e saudável, com planos de futuro e até viagem marcada para ir a Santiago no mês de Outubro… não teve medo.
Deixou-nos no dia 8 de Agosto, levado por um coração traiçoeiro. Deixou Benavente mais pobre e deixou-me a mim com a enorme frustração de perder um amigo recente, cuja atitude de entrega já antevia tantas conversas saborosas sobre a “sabura” da sua terra.

O Semedo afinal guardava no nome dele a absoluta verdade: ele é que não tinha medo. E não achou cedo.

Margarida Neves
Benavente, 17 de Julho de 2008
Benavente, 27 de Agosto de 2008

quarta-feira, julho 02, 2008

Uma história de uma ilha

A Ilha do Reino dos Céus



Vou ter uma consulta e aguardo a minha vez. Estou no Júlio de Matos, o Hospital dos malucos, ou, como diz a minha madrinha Cesaltina, “dos que têm pouco juízo”.
Confesso que estou apreensiva… sinto-me tão bem aqui que me questiono se deverei ficar preocupada. Atrás de mim, noutra mesa da esplanada, a apanhar o sol matinal, dois “malucos” discutem literatura. Um traz consigo O Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares; o outro opina que os clássicos é que valem a pena e, de facto, traz consigo uma obra de Proust que é uma referência, À procura do tempo perdido.
Falam de livros como há muito tempo eu não ouvia falar, nem no meu dia a dia, nem nas salas de professores por onde passei, nem sequer no seio daquelas pessoas cultas que de “cultas” têm a oca presunção e às vezes até de “pessoa” têm pouco. Os meus vizinhos de esplanada falam com paixão genuína, sem vestígios de vaidade. O amor aos livros está presente no seu estado mais puro, sem verniz, sem hipocrisias, sem competições ditadas por egos inseguros.
Passear pelos corredores destes edifícios é uma experiência marcante. Encontro a toda a hora gente que parece sósia dos grandes nomes da literatura. Ali, encostado ao balcão de atendimento, de fato escuro e ar tímido, parece o Fernando Pessoa. A deambular, perdido noutro universo, entre corredores e pensamentos, um homem de longas barbas, que podia bem ser o profeta Gentileza. Juro que, num canto, a espreitar atrás de um jornal, me pareceu ver o ar desconfiado do Leão Tolstoi.
Sente-se, na atmosfera, que estamos num sítio especial. Os empregados, seja da secretaria, seja do bar, são de uma simpatia e de um carinho inquestionáveis. Aqui, finalmente, me explicaram as coisas sem agressividade, sem má vontade, com todo o tempo do mundo. A pressa ficou lá fora, o imperativo neste lugar é não angustiar ainda mais as pessoas que precisam de visitar este espaço.
Da esplanada, onde vou escrevendo, vejo um conjunto de edifícios harmoniosos, de um cor-de-rosa tranquilo, antigos e bem conservados, rodeados por relvados, árvores e sombras. Um espaço óptimo para se estar, ler, escrever, meditar.
Por cima de mim, vejo chegar os aviões já muito perto do chão, aquela barriga enorme cheia de homenzinhos e as caudas e o dorso a apregoarem a sua proveniência. Uma gatinha meiga vem cumprimentar-me, roçando-se pela perna da mesa e, pela esplanada toda, os pombos diligentes debicam migalhas num bailado eléctrico. Adoro ver os aviões, adoro gatos, árvores, sombra, esta atmosfera de tranquilidade… isto parece mesmo ser o lugar ideal para mim.
Aproxima-se um rapaz. Vem, ziguezagueante por entre as mesas e fica a olhar para as minhas psoriáticas pernas ao sol.
- “O que é que tens? As tuas pernas estão vermelhas!” – informa ele.
- “É uma doença” - digo eu
- "tá bem…” - aceitou ele – “posso-me sentar?”
Vem-me à memória as muitas perguntas, sugestões e comentários sobre a minha doença de pele que tive de ouvir ao longo destes dias. O Fábio – é assim que se chama o rapaz – aceitou-me como sou. Não conhece nenhuma cura fabulosa, não me olha com pena, não fica a olhar, cheio de consternação ou piedade. Nada disso. Ele apenas me aceita como eu sou, puxa uma cadeira, senta-se e, como se fôssemos amigos desde sempre, pede-me um desenho.
Aproveito a abertura e começo a conversar. Pergunto que desenho ele quer e, através de perguntas de triagem (animal, pessoa ou casas? Pessoa; Homem ou mulher? Mulher) lá nos vamos guiando até aparecer no papel um desenho de uma mulher loura, de calças, saltos altos e blusa indiana. Felizmente o Fábio não é exigente em questões de arte, porque eu sou francamente medíocre a desenhar.
O Fábio diz-me que tem vinte e cinco anos e o meu diagnóstico amador dita: idade mental de oito, talvez paralisia cerebral, o que explicaria a dicção defeituosa.
Abençoada presunção que me permite estar cinco minutos com alguém e achar-me com a sabedoria de um diplomado em psiquiatria. De qualquer forma, para esta história, o diagnóstico serve, espero. Para além de oito anos mentais e uma ternura imensa, este rapazinho revela ainda um péssimo conhecimento de arte, pois aprecia o meu desenho e ainda vem pedir mais dois. Desta vez sabe o que quer: uma aranha a subir uma teia e uma borboleta.
Quando ele se meteu comigo, eu não imaginei que íamos passar tanto tempo juntos. Este rapaz tem a ingenuidade de uma criança e a malícia de um adolescente. Adora vangloriar-se com as suas conquistas amorosas e segredou-me que queria um computador para aceder ao site da Playboy…Recitou-me um poema, que diz ser da sua autoria, e é um autêntico monumento à poesia näif:
“I love you” – em Inglês
“Je t’aime” em Francês
Para te dizer a verdade
“Eu amo-te” em Português
Conhece muito sobre televisão e fala com entusiasmo de personagens e enredos; mas quando tento aferir o que ele sabe realmente de um assunto que menciona, muda abruptamente de assunto e escolhe um tema passível de me distrair. Se eu não aceito a mudança e volto ao assunto anterior, responde com uma palavra (“sim”; “foi”; “era”; “disse”) e volta ao seu novo assunto, onde está mais confortável, onde sabe dizer algo.
É um bom conversador e procura encontrar assuntos que me agradem. Como me viu a escrever, perguntou-me se gostava de livros e logo se vangloriou de saber ler. Dei-lhe um pequeno texto para aferir a veracidade da bazófia e fui apanhada desprevenida. Ele olhou, reconheceu tratar-se de inglês e devolveu-me a folha de papel. -“Isso é inglês… dá-me em português que eu leio” – e leu, de facto.
Confrontei-o, na brincadeira, com as mentiras que lhe apanhei e ele, safado, sorria e tinha a lata de me perguntar uma realidade verosímil, para poder ir mentir a outros.
Fábio – “Eu já namorava com um ano!”
Eu – “Impossível, com um ano nem falavas.”
Fábio – “Fala-se com que idade?”
Eu – (lembrando os meus sobrinhos) – “ Sei lá, 3, 4 anos.”
Fábio – “ Isso! Com 3, 4 anos já namorava! Enganei-me há pouco…”

E sei que esta informação, recém-chegada aos seus ficheiros mentais, vai ficar registada, para ser contada a todas as pessoas que o queiram ouvir.


O Júlio de Matos é um local parado no tempo e no espaço – uma ilha de tranquilidade. Um parque botânico onde o bulício da cidade não entra, onde os preconceitos são bem menores e menos ferozes. As diferenças aceitam-se mais facilmente, pois todos têm um pouco mais de diferença. Senti-o, literalmente, na minha pele.
Passei quase um dia nesta “ilha” e isso fez-me pensar. Claro que quero voltar à minha vida lá fora… mas senti-me mesmo bem aqui. Cheguei à conclusão que os doentes que aqui estão internados não vivem isolados do mundo apenas devido à doença. Eles vivem num mundo à parte, uma “ilha”, um pequeno paraíso, bem no coração da Capital. Chamei-lhe “A ilha do Reino dos Céus”, pois são eles os seus legítimos merecedores.


Margarida Neves
Lisboa, 26 de Junho de 2008


Uma história de duas irmãs


As irmãs Metralha



Elas são duas irmãs. Três, aliás, mas só duas entram nesta história. A terceira não é protagonista, mas poderia bem ser a narradora, já que tem uma personalidade espirituosa.
A mais velha das duas que entram na minha história é do tipo maternal, uma das pessoas mais adoráveis que encontrei na minha vida. Todos os dias agradeço aos céus o facto de a ter por perto.
Quem a conhece sabe que é uma pessoa honesta, de princípios inquestionáveis e incapaz de fazer mal a uma mosca. Daí ser tão engraçado vê-la envolvida numa pequena batida de carro, em que a culpada é ela, mas apenas por lapso.
É que a outra senhora, a dona do carro lesado, vinha de um episódio recente em que lhe arrancaram um espelho e fugiram, tendo ela sido obrigada a memorizar a matrícula do prevaricador e ir delatá-lo à GNR. Grande mulher! Não conhecendo a dona deste segundo carro que lhe batia agora, e ela a uns metros observando tudo, assume que esta condutora também vai fugir e grita e esbraceja e ameaça chamar a polícia, e já agora (vou delirar) os bombeiros, a protecção civil, e um representante da ASAE, que dá sempre jeito. A senhora lesada traz uma filha de 10 anos a reboque; a senhora que bateu traz um vizinho de 13 anos. Ambos a viverem o seu primeiro filme americano… a emoção do dia!
Depois tudo se resolveu a bem, a senhora lesada lá se acalmou e lá percebeu que esta condutora era a pessoa maravilhosa que eu conheço. Mas ela, a condutora que bateu no carro, é que já não se livra de ouvir as minhas piadinhas e observações:
-“ Qualquer dia ainda vai parar à prisão! Anda aí a bater nos carros todos e depois foge! É uma criminosa com rosto de anjo!”

Esta é a irmã mais velha.

A irmã mais nova é um exemplo de educação e de elegância. Fala em voz baixa, mas todos se calam para ouvir a sua opinião. Também ela é correctíssima no trato pessoal e social. Goza, como toda a família, de bom-nome e da fama de pessoa honesta, que é, realmente.
No entanto, bastou passar um cheque de uma quantia irrisória, que eu imediatamente depositei no dia seguinte, para se tornar também ela uma candidata a criminosa.
Por um lapso familiar que não vem ao caso, o marido dela julgou ter perdido a carteira e, como pessoa cautelosa, anulou os cheques.
Agora sabemos que a carteira não estava perdida. Ainda não sabemos se o meu depósito foi anterior ou posterior ao telefonema do marido solicitando a anulação dos ditos cheques. Ou se o cheque que foi passado era dos que foram anulados… O tempo o dirá.
Mas ela, a senhora que passou o cheque é que já não se livra de ouvir as minhas observações:
-“ Qualquer dia ainda vai parar à prisão! Anda aí a passar cheques “manhosos”! É uma criminosa com rosto de anjo!”

E como se não bastasse, ainda massacro as duas dizendo que, pelo menos, terão a companhia uma da outra, já que decidiram agora, em plena idade adulta, seguir a carreira de Irmãs Metralha.


Margarida Neves
Benavente, Junho de 2008

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Uma história de tranquilidade


A Tranquilidade de nuvens escondidas

O Mário L. tem trinta anos. É electricista e mora perto de mim, numa povoação que se situa entre Benavente e Coruche. A mulher dele tem 23 anos e trabalha como caixa num supermercado. Têm duas filhas, uma com cinco anos e outra com três. O Mário é um amigo nosso e é um cromo do melhor que há. É um tipo magro, relativamente bem parecido, muito bem disposto, sempre sorridente, como se a vida lhe corresse sempre bem e não tivesse motivos que lhe provocassem aflições na alma (meu Deus, eu sou diametralmente oposta.... como eu queria ter uma costela de Mário!)
Como se vê pela idade da mulher dele e das miúdas, ela foi mãe muito cedo... aquilo foi uma coisa assim tipo pedofilia (eu é que o chateio com isso, digo-lhe que ele devia ir preso), porque ele era muito mais velho e meteu-se com ela que tinha 16 anos e depois ela ficou grávida e andou muitos meses até descobrir ou revelar… Foi tudo muito complicado, digno do melhor enredo de telenovela.
A mulher do Mário é uma pessoa estranha. Só estive duas vezes com ela e das duas vezes não consegui conversar com ela. Pareceu-me ausente, indiferente, embora a ocupar-se das miúdas, desconfio que é pouco inteligente, não lhe achei interesse ou fascínio nenhum.
A segunda vez que a vi, foi no verão de 2006. Foi num jantar no Algarve com dois casais que lá estavam de férias e os quatro miúdos deles. Foi aí que senti mesmo esta impossibilidade de chegar a ela, pois com a esposa do outro casal, entendi-me muito bem. E ela não participou na conversa geral, é mesmo uma pessoa estranha, impenetrável ou então básica...
Pessoas mais directas dizem que “ela não bate bem da bola”, o que justifica estar com o Mário, já que ele é um cromo e tanto.
Há quatro dias, como costuma fazer muitas vezes, o Mário apareceu cá no escritório, para cravar um cigarro (fuma ocasionalmente) e falar um pouco, às vezes vem pedir para tirar uma fotocópia ou mandar um fax. Ele é um raio de sol, porque anda sempre a sorrir, o problema são as nuvens que ele ignora. Nesse dia, eu estava bem disposta e conversadora e como gosto muito dele, comecei por perguntar pelas miúdas e pela mulher e já não me lembro como, a conversa derivou para radares de velocidade e apreensões de carta e diz-me então ele que teve a carta apreendida no ano passado. Eu perguntei-lhe em que altura isso tinha acontecido e ele diz que foi entre Março e Setembro... Eu, (já apreensiva) "Mas, olha lá, nessa altura estive eu contigo no Algarve! Como é que foste para o Algarve sem carta?" E ele, "Ah, isso não me incomoda nada, quero lá saber!" E eu (horrorizada) "Mas férias é período de descontracção, de calma, como é que conseguias andar tranquilo????" E ele (sem conseguir entender a minha angústia) "Mas eu andava tranquilo! Ando sempre!" Aí, eu tive uma ideia e perguntei "A tua mulher conduz?" E ele responde "Conduz sim, e todos os dias!" Nessa altura eu respirei de alívio e fiz uma imagem mental do Mário mesmo de férias e a mulher com a tarefa da condução a seu cargo e o meu mundo voltou a organizar-se. Mas essa imagem mental durou poucos segundos e corresponderam à pausa que o Mário fez no seu discurso. Porque ele continuou a frase que afinal tinha deixado a meio. E então ele terminou-a: "Ela só não tem é carta!"
É como digo, quem me dera ter uma costela de Mário!



Margarida Neves
Benvente, Janeiro de 2008






quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Uma história de cabeças



Anémonas





À Filinta, com quem alinhavei estes pensamentos

Anémona s. f.
planta da fam. das Ranunculáceas, cultivada para fins ornamentais;
a flor desta planta.
(Do gr. anemóne, pelo lat. anemóne-, «id.»)

anemo-
elem. de formação de palavras que exprime a ideia de vento.
(Do gr. ánemos, «vento»)

an-
pref. que exprime a ideia de privação, separação;

Mona s. f.
(pop.) cabeça.


- Ó professora, sabe que fica muito mais bonita quando pára de respirar?
- Stôra, temos de escrever ISSO tudo? Mas isso dá muuuuuito trabalho!
- Ler ISTO? Que seca!...
- O que eu penso da política ( da sociedade, da ecologia, da paz mundial, das espécies em extinção...)? SEI LÁ! Nem me interessa!...

São estas algumas das preciosidades que eu ouço dos meus alunos e alunas, adolescentes que frequentam o 8º ano de escolaridade. Considero-as bastante representativas do calibre cognitivo e cívico dos nossos cidadãos de amanhã.
Há dias, durante um Conselho de Turma intercalar, dei por mim a pensar que muitos destes meninos e meninas têm as cabecinhas vazias, o que faria deles uma espécie de anémonas. Enganei-me, claro, porque o que eu queria dizer era “medusas”, que é como quem diz “alforrecas”, aquelas graciosas criaturas marinhas em forma de pára-quedas, que parecem bailarinas de Degas.
No entanto, embora ciente dele, vou persistir no engano, já que a palavra “anémona” me abriu um interessante caminho de pseudo-análise linguística.
Se não, vejamos: a palavra em causa é composta por um prefixo, an- que exprime a ideia de privação ou separação (como em analfabeto); segue-se uma vogal de ligação, e, que também poderemos baptizar com o pomposo nome de vogal epentética e, finalmente, uma palavra base, mona, que em bom português popular significa ‘cabeça’.
As anémonas serão, portanto, as criaturas desprovidas de cabeça, esta geração que nós, adultos (e ex-anémonas de memória curta) classificamos de “vazia”. A corroborar esta teoria, há ainda o facto acrescido de anemo- ser um elemento de formação de palavras que exprime a ideia de vento. Ora, os nossos adolescentes, para além de parecerem não ter cabeça, não se comportam também como umas autênticas “cabeças de vento”?

Margarida Neves
Castelo de Paiva, 21 de Fevereiro de 2006







Bitolas





Ao Sérgio, que me explicou o que era uma bitola




Bitolas são objectos que servem o propósito de assegurar uma determinada medida em objectos feitos à mão. Contava-me há dias um amigo, pescador por paixão, que há uma bitola para a confecção de redes de pesca, sendo que a medida de lado de cada quadrado da malha dependerá do tamanho médio do peixe adulto que se pretende pescar. “Pela mesma bitola” é uma expressão que significa ‘seguindo os mesmos critérios’, ou seja, pelas medidas predefinidas, para que elas sejam as mesmas em todos os casos.
No entanto, seguindo o método que usei no texto anterior, apetece-me continuar a fazer análises pseudo-linguísticas e também esta palavra, bitola, se presta em absoluto a uma desmontagem…

bi- pref. que exprime a ideia de dois, duas vezes.
(Do lat. bi-, de bis, «duas vezes»)

bit - s. m. palavra inglesa que designa a unidade mais pequena que se pode armazenar na memória de um computador;

tola - s. f. (pop.) cabeça.
(De orig. incerta)

Bitola - s. f. medida-padrão; modelo;
(fig.) igualdade de posição social ou mental;
inteligência;
capacidade;


olá! - interj. que designa chamamento, espanto ou afirmação.
(Do cast. hola!, «id.»)

Li numa crónica brilhante do Miguel Esteves Cardoso que os adultos só queriam o bem para os seus filhos adolescentes, só que esse ‘bem’ não era bem o ‘bem’ que os filhos queriam…” Essa do ‘bem’ não ser bem bem o ‘bem’ que se quer explica-se pela análise da Bitola!
O adulto quer tecer um determinado ‘bem’ em redes de malhas apertadas (de segurança e responsabilidade) e o adolescente prefere que essas redes sejam tecidas, sim, mas menos apertadas (com menos controlo, menos policiamento e menos perguntas) Os pais, tolhidos pelo medo, querem-nos por perto, debaixo de olho e os miúdos, fascinados pela descoberta querem-se livres.
E nessa guerra, passada a determinar medições de bitolas, lá vão crescendo e tornando-se jovens adultos. E um dia, para espanto de quem tanta vez abanou a cabeça em descrédito… o bit cerebral acorda para o mundo das responsabilidades e revela o que andou oculto durante o longo nevoeiro da adolescência… que eles pareciam anémonas, desprovidos de mona, mas afinal tinham uma bi-tola! Duas cabecinhas, uma das quais pronta a funcionar em todo o seu furor cognitivo!
É nesse momento glorioso que nós, ex-anémonas de memória curta e donos de uma bi-tola que serve para nos orientarmos na vida, mas também para ocasionalmente nos condoermos da ausência de bits nos cérebros dos nossos meninos, é nesse momento, dizia, que, ao vermos uma das tolas revelar-se, exclamamos com espanto e alegria…
-“ Ah, felicidade!!! Afinal havia bit… olá!!!!!!!!!”

Margarida Neves
Figueira da Foz, 8 de Fevereiro de 2007





quinta-feira, janeiro 18, 2007

Uma história de não existir


É que não há


Se há dúvidas recorrentes e permanentes no âmbito da escrita do Português, a mais flagrante e constante é a confusão entre a contracção “à” e a forma verbal “há”.
Por mais que eu insista com os meus alunos, por mais que eu me esforce e explique que “à” e “há” são duas palavras distintas que só têm em comum o som, a confusão veio para ficar.
O truque usado pelos professores é mandar substituir a forma verbal “há” por “existe”. À partida, este método parece infalível:

- Meninos, escrevam: “No quintal há fruta madura…”
- Ó professora, é com agá?
- Então, pá, não vês que sim? “No quintal existe fruta…”

Ou então:

-Meninos, escrevam: “A Teresa estava à janela”…
- Ó professora, é com agá?
- Pois, está-se mesmo a ver! “A Teresa estava existe Janela…”

No entanto, não há como aplicar o método ininterruptamente para que, em algum momento, ele revele uma falha inultrapassável.
Uma amiga minha encontrou um bilhete escrito pela sua empregada, onde se lia “Não à cebolas”. Como professora de Português, apressou-se a explicar à senhora que não era “à”, era “há”, porque era do verbo “haver”, que era o mesmo que dizer “existir”. Ao que a empregada, na sua lógica inabalável retorquiu que então, a senhora doutora que desculpasse, mas era mesmo sem aga, porque não era do verbo “existir”, mas sim do “não existir”, pois não havia mesmo cebolas em casa, logo era sem agá.
Não há método infalível que não falhe um dia…


Margarida Neves
Figueira da Foz, 15 de Janeiro de 2007

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Uma história de miniaturas

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Como um Bonsai

À Vera Gabriel – ela sabe porquê


Verónica teve durante muitos anos aquele cavalinho de madeira escura na sua secretária. Tinha sido um prémio dado por uma professora cheia de ideias brilhantes. A melhor composição tinha como prémio um cavalo, a segunda melhor um cão, a terceira um gato de madeira. O cavalinho era o seu companheiro desde esse dia glorioso, o dia em que a professora leu em voz alta a sua história, louvou o tema escolhido, “Se eu fosse nuvem, não chovia em nenhum coração” e toda a turma a aplaudiu com entusiasmo.
Logo no caminho para casa, de cavalinho bem apertado na mão esquerda e cavalgando-lhe pelo braço acima, até se alojar no coração onde brilhava o Sol da sua história, a pequena Verónica decidiu que a sua vida seria em permanência uma homenagem aos cavalos. Amava-os de longa data e com loucura.
Embora vivesse na cidade e só raramente os visse ao vivo, faziam diariamente parte da sua vida: coleccionava com avidez postais com imagens de cavalos e o seu sonho era ter um dia uma quinta onde pudesse ter muitos e cavalgar até à linha do horizonte.
Era como se sonhasse ter uma floresta e lhe tivessem oferecido uma árvore em miniatura.
Uma miniatura – sorriu. Abriu a mão onde o cavalinho estava aprisionado.

Gostas de Bonsais? - perguntou-lhe - Vou chamar-te Bonsai!
Cresceu com o Bonsai a trotar-lhe pelos livros, a galopar-lhe nas linhas dos cadernos, a saltar-lhe as vedações do lápis e canetas. De noite, dormia no estojo-estábulo.
Eram grandes amigos, Verónica e Bonsai. O tempo passou e ela frequentou o liceu e a universidade e fez-se médica. O seu amor por cavalos manifestava-se em pequenos gestos e em grandes decisões. Quando o Bonsai morava na sua secretária há quase um ano, nasceu-lhe em casa uma menina a quem ela insistiu chamar Filipa, a amiga de cavalos. Os pais concordaram e essa irmã, baptizada à luz de uma paixão alheia, também cresceu a amar o Bonsai e os seus parentes grandes e vivos que corriam pelos campos.
Nas tardes douradas de Domingo, Verónica levava Filipa a passear, para verem os amigos cavalos pastarem altivos nos prados. Verónica gostava dessas visitas à floresta, mas gostava ainda mais de voltar a casa, para a sua arvorezinha, o seu Bonsai único de tão particular.
Um dia trágico, Bonsai morreu. Um pequeno incêndio no escritório causou poucos danos à família, mas matou um pouco a Verónica por dentro. Feito de madeira, Bonsai foi dos primeiros objectos a arder, secar e desfazer-se em cinzas. Fiel aos princípios que defendia desde a infância, não deixou que as nuvens de tristeza lhe chovessem no coração. Afinal tinha tantos outros motivos de felicidade e o Bonsai era seu, muito seu. Mesmo cinza vivia na sua memória.
Os dias passaram, os anos passaram. Verónica era uma jovem médica ortopedista e trabalhava em colaboração com um centro hípico. Foi aí que conheceu Rodrigo. Ele era o veterinário que estava à frente do projecto em que Verónica trabalhava.

A conexão era perfeita, sentiam-se bem quando estavam juntos. Os silêncios entre eles eram confortáveis e isso, sabiam-no, queria dizer tudo.
Rodrigo foi um dia em trabalho a Viana do Castelo e, no regresso, trouxe à Verónica um inesperado presente. E também uma grande surpresa, uma surpresa maior do que ela. Quando rasgou o papel de embrulho, foi assaltada por uma estranha sensação. O passado atropelou-a no presente, a cinza recuperou a consistência da madeira. Espreitando dentro do embrulho rasgado, talhado numa madeira mais clara e com uma estrela na testa, um cavalinho irmão quase gémeo do Bonsai era o pequeno presente que Rodrigo trouxera a Verónica. Ele sabia que ela ia gostar, porque lhe conhecia o amor pelos cavalos. O que ele não conhecia era a história do Bonsai, Verónica só falava dele com a irmã, Filipa. O que Rodrigo não sabia era que o destino lhe dera o trunfo exacto para ganhar o coração da mulher que amava. E sem se saber munido de tal trunfo, jogara-o, porque assim lhe ditara a intuição.
O que Verónica já sabia era que tinha encontrado o amor da sua vida. Ela sabia que Bonsai olhava sempre por ela, onde quer que estivesse. E também sabia que ele lhe afugentava as nuvens, para que nunca lhe chovesse no coração.


Margarida Neves
Figueira da Foz, 11 de Janeiro de 2007


terça-feira, janeiro 02, 2007

Uma história de imprevisto

Em Coimbra, há poucos meses, foi construída uma belíssima ponte pedonal que tem umas paredes laterais numa sinfonia de mosaicos de vidro tricolor. Estes vidros estão dispostos como as facetas de um diamante, em vários ângulos.
Nada percebo de arquitectura e, tal como em todas as artes em que sou apenas contemplativa, a minha atitude é sempre a de admirar o belo, Sabendo, humildemente que não lhe apreendo a mensagem total. No entanto, a mensagem de um artista
é captada e construída pelo número de pessoas que a conhecem, numa plural concretização. A obra de um artista renasce em quem a vê e interpreta, sempre em renovadas roupagens. É essa a beleza da arte.

No entanto, enquanto passeava na ponte pedonal, outra ideia me ocorreu e é nessa que embarco, debruçada na sua tricolor amurada, rumo à minha próxima crónica.

Este texto é dedicado ao meu inesperado milagre, com quem fui conhecer a ponte pedonal de Coimbra.

O inesperado milagre

Não sei qual o objectivo de pôr aqueles vidros tricolores na ponte pedonal… mas já lhe encontrei uma utilidade. E encontrei-a de forma casual e acidental.
Casual, pois nem contava ir a Coimbra nesse fim-de-semana; acidental porque eu só queria fotografar o meu reflexo, humilde e modesta como sou…

E não é que surge um inesperado milagre?

A imagem surpreendente que resultou da minha atitude, plena de vazia vaidade, levou-me a pensar nas coisas magníficas que nascem de gestos direccionados para outros objectivos. Sendo fruto de um acidental desvio, originam resultados que têm tanto de fantástico como de inesperado.
Da feliz coincidência do acaso, nasceu uma fotografia que eu, confesso, nem acho digna de mim, já que eu gosto é de letras e palavras e nunca me considerei grande fotógrafa. Esta imagem equivale aos meus quinze minutos no âmbito da imagem.
Esta fotografia é também, sem dúvida, o milagre nascido de uma tosca e fútil procura de auto-retrato. Através de desvio acidental de um propósito único, consegui, sem o pretender, captar a cidade ao fundo, o reflexo das árvores atrás de mim e o meu reflexo, tudo num colorido puzzle de luz, realidade e reflexão.

Vou pegar na minha realidade, a de ter tido vários anos de experiência como professora de Português no ensino básico e secundário em Portugal e Cabo Verde e desenvolver uma reflexão acerca dos inesperados milagres que já me aconteceram enquanto professora.

È usual dizer-se que, se entre todos os alunos de um professor, apenas um aproveitar o trabalho realizado nas aulas e evoluir no seu conhecimento, esse único aluno compensa o trabalho e a dedicação do professor. O meu princípio é esse e é esse o de todos os professores que o são, de facto.
No entanto, nunca ouvi nem li nada sobre pequenas surpresas que os "artistas a haver" que tenho à minha frente numa sala de aula são capazes de fazer…
Se eu levo textos divertidos para eles lerem, é natural que haja um aluno que me venha entregar textos giros e imaginativos – aconteceu com o Telmo. Se eu promovo em aula oficinas de escrita com temas estimulantes, também é natural que uma aluna me diga que descobriu comigo que adorava escrever – aconteceu com a Patrícia. Se eu aconselho livros de leitura paralela e escolho os títulos mais apetecíveis para eles, é natural que outra aluna me traga listas de palavras desconhecidas, retiradas do livro que andava a ler e me pergunte o seu significado – aconteceu com a Sandra. Lembro-me que esta menina chegava a sacrificar os preciosos intervalos para aprender vocabulário novo comigo. Tudo isto são pequenos milagres que fazem com que a vida de professor valha a pena e que nos aquecem o coração. Mas são aqueles milagres esperados por nós, professores. Do mesmo modo, também o arquitecto que projectou a ponte pedonal de Coimbra espera o milagre de a ver bela, admirada e fotografada.
Mas o que ninguém espera - e por isso é que lhe chamo inesperado – são as pequenas ou grandes coisas que nascem da nossa atitude, mas não resultam no que nós projectámos. Divergem, logo no início da recepção e dessa viagem alternativa nasce algo fantástico. Fantástico, porque é um milagre nascido de um acaso acidental e mesmo assim, ou exactamento por isso, resulta em algo inesperado e alternativo.
No ano passado, por exemplo, tinha a meu cargo quatro turmas do 8º ano e era professora de Português dessas turmas e também de Estudo Acompanhado de três dessas turmas. Numa aula de Estudo Acompanhado, surgiu a oportunidade de lhes mostrar o filme O Fabuloso Destino de Amélie de Jean-Pierre Jeunet. O filme é excelente e eu sabia que os meus meninos iam ficar cativados por esta história tão engenhosa e bem contada. O que eu pretendia com esta actividade era mostrar-lhes bom cinema europeu, e testar a atenção deles, uma vez que lhes distribui uma ficha de acompanhamento do filme, onde existiam várias perguntas relativas a pormenores que apareciam apenas fugazmente. Quem acertasse no questionário todo, provava-me possuir um bom sentido de observação e uma boa capacidade de concentração.
Conseguir bons resultados era esperado, fazê-los apaixonarem-se pelo filme também era esperado, ter alguns meninos a pedirem-me o filme para o reverem em casa também era esperado… tudo milagres, mas esperados.

O que eu não contava era com o que um aluno meu fez… interessado numa rapariga do 9ºano, decidiu inspirar-se na personagem da Amélie, profícua em estratagemas rebuscados, e criou uma série original de enigmas e pistas para guiar a tal rapariga ao seu coração.
Esse resultado, confesso, não esperava eu! E mais, não esperava que o rapaz confiasse em mim, ao ponto de me mostrar o seu plano, para que eu lhe desse a minha opinião. Posteriormente veio ainda a contar-me o êxito retumbante da sua estratégia e a agradecer-me o facto de, indirectamente lhe ter mostrado o caminho que ele precisava. Ele sabia que para conquistar a menina, tinha de a surpreender. Este desenvolvimento foi um milagre inesperado, Cumpriu-se o pressuposto óbvio, o de um aluno interiorizar o que aprende na escola e conseguir aplicar isso no seu contexto pessoal. É claro que o rapaz usou um assunto pouco académico e pô-lo em prática num contexto nada académico… mas usou o cérebro, pensou, imaginou, foi criativo e, mais importante que tudo isso, usou o coração, fez algo muito seu com gosto e alegria. Isso para mim é um inesperado milagre.

Margarida neves

Mira, Janeiro de 2007

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Uma história de girafas... ou não



Naquele tempo em que a Brigada do Abominanço abominava a valer, um amigo, que é de outro filme e nem da Brigada sabia, fez férias na neve…
Uma amiga nossa, membro da Brigada do Abominanço, perguntou-lhe logo se lá havia girafas…
Ele, sem perceber nada da pergunta, conseguiu responder à altura e disse que, se ela se referia às pessoas que esquiavam mal e se ESTATELAVAM na neve,
havia muitas girafas por lá.

Nós, eu e a minha parceira de Brigada, a Borboleta azul, ficámos contentes por termos amigos de outros filmes que, mesmo no escuro, respondiam à altura.
Por isso, na minha Revolta dos Maços a girafa surge revoltada por não querer ser da neve e já vagamente estatelante.
Estava tudo a correr tão bem…
Um dia, em Coimbra, a tirar fotos ao despique com um amigo, aparece um grafiti, que até foi ele que viu, onde a teoria das girafas estatelantes…
vai à vida.



Ainda as girafas.. ou talvez não!



Às girafas da neve, que tão caras nos são, a mim que sou mesmo da neve e a ti que, como elas, és gira (e nada -fa) o nosso inestimável e surpreendente amigo anexou, com graça a qualidade estatelante, sem saber que se metia num filme da Brigada do Abominanço da India (ou talvez da China), que é ali, quando se vai para o Catassa, pelo abominódromo fora, e depois cortas no primeiro sexto sentido.

Pois bem, e que dizer ao bizarro acaso, obra das Fúrias, que me levou hoje a bater num muro que de nada se lamentava, mas que gritava no seu idioma grafitês que afinal, elas, as girafas (não as giras, note-se) afinal eram só ATELANTES, tinham perdido o EST, nem quero imaginar que iniciais serão, estas cadentes E, S e T, já que a sobejante informação é de facto, assustadora.
Elas, as girafas, não o são, também não são giras...nem sequer são gajas, são ELES e são... prepara-te: demónios...
Está tudo explicado - pensei eu, a perceber cada vez menos. Então se elas são eles e mesmo assim o pescador de ATUNS!!! sabia que vivam na neve, então eles, os demónios, disfarçam-se de girafas, estatelam-se e depois engolem o EST (Espírito Solidário Terrível ??? Estado de Sítio Tropical??? Estudante Safado Terrorista???) para se atelarem sei lá a quem...
O ou Kiko um dia disfarçou-se de diabo e o pescador percebeu tudo mal, já que 2 semanas e meia de faina não dão lá grande prática para perceber as abominações da vida? Se fosse o Kiko disfarçado, pelo menos explicava-se o porquê da sua insistente frase: NÃO HÁÁÁÁ GIRAFAS NA NEVE!

Preocupante, cara membro da Brigada do Abominanço. Algo ou alguém baralhou e voltou a dar e nós não estávamos na mesa. Exige reunião urgente de ti com mim, para deslindar as abomináveis lamentações, ou talvez não, do muro lamentante.
Sabes que mais? Palpita-me que é um filme de outro país, mas eu não sei qual, já que nem sei de que terra sou, mas será com certeza país de calores, sabores e pecados, Inferno, talvez.

Sim... sabemos que é de lá que os demónios são, digo eu que só tenho um desejo: que me expliques porque razão hoje tropecei numa parede que atravessei e me levou outra vez
a navegar a 24MB, ao colo do sapo que hoje era tudo menos subaquático, para a Maçolândia ou para o país da tua mágica branca neve.





quarta-feira, dezembro 20, 2006

Uma história de absurdos

A título explicativo, devo dizer que estes textos que se seguem nasceram numa época em que surgiram os primeiros programas do Gato Fedorento na SIC Radical. Eu adaptei a minha história à linguagem deles e também fiz algumas referências a personagens criadas por eles. Passo a apresentar as ditas personagens...






A Girafa que não é da neve e o Abominável Homem das Neves


O Pescador de Atuns com 15 dias de faina e o Urso



A Revolta dos Maços foi inspirada numa noite memorável que passei com o meu grupo de amigos. A esse grupo chamei a “Brigada do Abominanço”, pois andar em grupo na noite, a dançar e rir, beber e conversar é o que nós chamamos “abominar”…
Desse grupo de amigos, faz parte a minha querida



Borboleta azul



É à minha Borboleta azul, que dedico esta história.



A revolta dos Maços

(ou a pistola para lavagem de carros

que foi tudo nessa noite)




A noite até nos estava a correr bem. A Brigada do Abominanço tinha-se encontrado, nos sítios e horas do costume. Os vários amigos, os grupos entrecruzados, as teias humanas e desumanas que as histórias de amor, de amizade, de raiva e de dor tecem na noite.
Os sítios habituais, sempre novos, porque em cada noite há novos episódios e dados para enriquecer a já fílmica realidade virtual em que o grupo, a Brigada do Abominanço, se move.
Naquela noite, por exemplo, o Kiko já subira de estatuto: era ainda o mítico abominável homem das neves, mas era também já o meu telemóvel, o chatinho grilo falante e pensante.
As girafas ainda viviam na neve, mas já se suspeitava que uma, a estatelante, se andava a insurgir, porque afinal nunca tinha lá vivido, era tudo mentira e ela estava que nem podia…
… pressentia-se no ar um clima de insurreição. A Brigada do Abominanço apenas a intuía e, como tal, não ligou. Continuávamos todos a saltar à corda, ao som da balalaica do capitão Gancho, como se nada fosse.
Nós nem imaginávamos o que aí vinha!... Eram três, vislumbravam-se as suas sombras disformes na névoa da noite. Os olhos de ver não os viam bem, mas os olhos do coração viram e ficaram assustados! Eram três e tinham, sem sombra de dúvida, sete etílicos olhos dispostos na vertical, algures entre o alto da testa e o meio do nariz. Nariz esse, aliás, que tinha mais uma narina do que é habitual, facto muito suspeito.
A Brigada do Abominanço nem queria acreditar! Mas pior, muito pior, estavam os narizes da Brigada… é que esses tais três cheiravam, ofensivamente, a sandes de atum!
A Brigada, após meses de intensa faina, sabia que não eram três meninos da cidade, mesmo com sete etílicos olhos dispostos na vertical, que vinham para ali ensinar o que era a pesca ao atum! A Brigada do Abominanço estava treinada para a faina. Tinha o equipamento completo, a começar pelo isco, passando pelo anzol e acabando nos atuneiros. Connosco ninguém se mete! Muito menos três meninos da cidade…
Tínhamos tudo controlado: os Ramirez, os Bacalhaus (a relinchar de ignorância), os Atuns, os Bons Petiscos. E os três com aquela conversa de quem pensa que nos engana, com aquela treta de que o tempo estava a mudar! Pois sim.
Continuámos todos a saltar à corda e os três meninos da cidade, que deviam ser drogados, entraram na dança. Já agora, porque não? Afinal, já estávamos que nem podíamos, éramos todos colegas de faina… e elas encartadas valem que nem trunfos.
Estava tudo a correr tão bem, quando chegou a girafa estatelante. Vinha a relinchar de fúria e trazia consigo o urso, que era de outro filme, por acaso um filme indiano, mas também podia ser chinês.
A girafa encostou-se ao balcão e pediu um Frize. Antes da bebida chegar, dizia: - Ai, ai, ‘tô que nem posso! – Bebeu e relinchou, inconsolável, que estava na mesma. O urso, que tinha uma natureza muito meiga, ainda a tentou acalmar, mas estava tudo perdido… nós, a Brigada, é que ainda não sabíamos.
A girafa saiu a galope do atuneiro do capitão Gancho e nadou até terra firme. Foi à Maçolândia acordar os Maços
A Brigada do Abominanço, tranquilizada pela meiguice do urso e com a borboleta azul a borboletar, continuava a não ligar e a saltar à corda. Agora eram dois dos meninos da cidade que segurava e rodavam a corda!
Ora bem, eu quero aqui dizer uma coisa: os Maços são simpáticos. Metem-se um pouco em névoas etílicas, é verdade, mas não são nenhuns lenhadores. São um pouco relinchantes, trabalham para o Ministério do Susto (tal como o Kiko, o Homem do sapo, o Monstro das bolachas, o Papão, a Manuela Ferreira Leite, etc), mas são criaturas do bem. Com eles, ‘tá-se bem.
A girafa foi maquiavélica. Ela sabe que os Maços estão a passar uma fase difícil, porque um dos colegas de trabalho, o papão, foi fisgado pela esgatanhadeira da P.J. e está lá, nos calabouços da Judiciária, entre o Michael Jackson e o Padre Frederico, a abominar as suas culpas.
Os Maços, para se esquecerem da desdita do colega, tendem a perder-se no fascinante universo etílico da noite. Transformam-se, por um insondável processo químico, que só as borboletas conhecem, em criaturas de sete olhos verticais, em menos de um piscar de olho vertical.
O abominável homem do México decide pôr fim À saltadura de corda e, sem música, mas cheios de ritmo, os membros da Brigada do Abominanço partem em busca de outros portos de abrigo.
Alguns, fiéis à faina, foram para ambientes náuticos, mas naufragaram de encontro a uma proibitiva porta fechada. Essa facção da Brigada desistiu, foi dormir e perdeu a segunda parte do filme.
Mas nós não ligámos. Continuámos, catassantes e intrépidos, pelo abominódromo fora, sempre a saltar à corda. No momento em que estávamos quase a sacrificar o nananananana… chiuaua! Para fazer bifanas, nesse momento chave da nossa história, aconteceu.
A girafa, ao volante de um camião TIR, chega, trava a fundo, descarrega os Maços no abominódromo e desaparece, num relinchamento vingativo.
Os Maços invadiram o abominódromo, quais Hunos desgovernados, o inconsequente etílico a falar mais alto, o urso escandalizado com tanta falta de meiguice e os lenhadores espantadíssimos, pois nunca tinham visto tanta rudeza. O louco, fugido do manicómio, de cabelo em pé e óculos de libelinha, a carregar uma grade inteirinha de Frize para a mesa da Brigada do Abominanço. Estávamos que nem podíamos, quase a chegarmos ao ponto de podermos que nem estarmos.
Mas não ligámos. Continuámos todos a saltar à corda, desta vez a pé coxinho.
Os Maços estavam todos a abominar, mas era um abominanço desorganizado, caótico. Algures, naquele caos, haveria uma ordem, mas era imperceptível para nós.
Pela janela/ecrã vemos então chegar novamente a girafa estatelante, desta vez a galope e puxando pelas rédeas um bólide de cor indefinida. Os Maços pressentem a entrada em cena de novas personagens, aquelas que trarão ordem e organização ao abominanço mácico.
São elas, as novas personagens, uma homenagem aos Zi Zi Top, o Thor e oseu maço. Duas magníficas personagens que merecem estatuto de membros honorários da Brigada do Abominanço, tal é a mestria com que o praticam. Faziam-se acompanhar de um intrigante objecto, que eu venho a saber mais tarde ser uma pistola de água para lavagem de carros.
O dito objecto sofre uma primeira metamorfose e transforma-se em guitarra eléctrica, entusiasticamente tocada pelo Maço Thor. O Maço serial killer decide apoderar-se do objecto e metamorfoseia-o em arma de precisão mortífera. Dá corda à tola, aponta o alvo, chocalha a tola, erra o alvo e mata uns quantos… ups… por engano.
Ai, ai, que desgraça, tanto sangue! Logo o providencial objecto se transforma em mangueira de bombeiros e lava o sangue que empastava o chão.
Nós, ainda a saltar à corda, mas já a falhar os pulos, de tanta distracção abominante, vimos surgir uma antena de espionagem política, pela qual se ouviam os planos do próximo bombardeamento do filme árabe. O Maço cantor, com um ataque de nostalgia, decide brindar-nos com um No woman no cry etílicamente melado.
Pelo ecrã/janela a magnífica dupla Thor e o seu maço dançavam ao som da música que gritava de dentro do carro. Era um musical moderno.
Lá dentro, nós, que nem bilhete pagámos (Eh pá, 8 Euros para quê, se isto é de borla?), tivemos direito a um minuto de Matrix, dois minutos de Existenz e ainda uma cena d’Os anjos de Charlie.O filme acabou quando a girafa, desmancha-prazeres, travou a fundo o seu camião TIR, convocou os Maços e bazou, estatelante e furiosa. Com esta não se brinca

Afinal, o tempo vem demonstrar que ela é um demónio!

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Uma história de noves fora nada




De monolema a enealema
A todas a pessoas que se angustiam a conjugar os verbos “Escolher” e “Decidir”.

- Querida, por tua causa estou com um trilema! – disseste-me tu ao telefone. Moravas na indecisão, perante três possibilidades e sem saber para onde te virar, se para a visita, se para o adiamento, se para a desistência. Felizmente para mim, venceu a visita. Agradeço-te com este texto, inspirado no teu trilema.
A ideia nasceu com a tua brincadeira, tão ao gosto de quem, como eu, adora brincar com as palavras. Comecei a pensar que, se havia dilemas e trilemas, porque não abrir, de uma vez, o leque de monolema a enealema? E assim fiz: abri o leque.

Monolema - (Do gr. Monos + lemma, «uma proposição» )
O Sr. Matos, de férias nas Caraíbas, foi pescar num barco para o mar alto. Veio um tufão e afundou-lhe o barco. Havia apenas um bote salva-vidas, a única opção que o Sr. Matos tinha para não morrer afogado. Viu-se, na sua aflição de quase-náufrago, confrontado com este monolema e seguiu-o, salvando-se.

Dilema - (Do gr. Dís + lemma, «duas proposições» )
As bifurcações da vida estão cheias de dilemas, sobejamente conhecidas de todos nós, pelo que passarei à frente, ao -lema seguinte.

Trilema – (Do gr. Treīs + lemma, «três proposições» )
Os trilemas, que me serviram de inspiração, são, na minha vida, de cariz musical e linguístico. Sou apaixonada por Sérgio Godinho, Chico Buarque e Jaques Brel. Se tivesse que escolher apenas um, seria uma desgraça, um trilema!
O mesmo se passa em relação às três línguas estrangeiras que conheço. Como escolher entre o Inglês, o meu passaporte para o mundo e veículo de recepção cultural da minha geração, o francês, língua materna dos meus sobrinhos e o alemão, a minha primeira língua estrangeira, que comecei a falar aos três anos? Hmm... trilémico, sem dúvida. Mas solucionável, pois estes trilemas podem ser combatidos por meio de uma estratégia de compromisso chamada amálgama. Sorte a minha que estes três elementos não se excluem entre si.

Tetralema – (Do gr. Tetrás + lemma, «quatro proposições» )
Passemos aos tetralemas. Esses apresentam uma combinação problemática de quatro lados e quatro arestas. Um problemão de âmbito metafísico-existencialista!
É triste uma pessoa não ter norte na vida... mas não será muito mais trágico não nos conseguirmos decidir entre Norte, Sul, Este e Oeste? Passar uma vida aos encontrões, sem ver as setas que a intuição nos dita e avançar e recuar ao sabor da tetralémica indecisão? Haverá maior desdita do que carregar em si as quatro condições de desnorteado, des-sulado, desestado e des-oestado? Que mau deve ser viver esta dor existencialista, ser-se uma criatura errante, assombrada por tal tetralema. Eu, felizmente, encontrei o meu norte a tempo de não me tresmalhar pelos caminhos da vida.




Pentalema – (Do gr. Pénte + lemme, «cinco proposições» )
E que dizer do Pentalema? Esse, então, é uma questão mundial, que muito preocupa quem se interessa por estas questões absolutamente desprovidas de pertinência e relevância.
Será que eu prefiro a negra África, com seus tambores tribais, a erudita Europa, semeada de castelos e palácios, a serena Ásia, de nascentes Sóis, a miscigenada América, palco do extremo bom e do extremo mau? Ou a austral Oceânia, de saltitantes cangurus e intrépidos surfistas?
Na verdade, gosto de todas, pois em todas encontro mais encantos do que desencantos. Mas neste pentalema reside o verdadeiro drama das oportunidades bloqueadas, fenómeno decorrente da escolha de um continente em detrimento dos outros quatros. Optando por viver num dos cinco continentes, tenho de preterir quatro, já que a fábrica que me concebeu não me equipou com o dispositivo da Ubiquidade.
Este pentalema é um peso, mas alivia-me pensar que as alegrias da minha escolha poderão compensar as quatro janelas de oportunidades que fecho.

Hexalema – (Do gr. Héx + lemme, «seis proposições» )
O hexalema é um caso bicudo, mas, pelo menos, alegra-nos com o seu colorido. Escolher entre vermelho, verde, amarelo, azul, cor de laranja, cor de rosa... os deuses me livrem de tamanha responsabilidade! Logo eu, que sou tudo menos mono-cromática!
Como posso eu prescindir do fogo no olhar dele, que me incendeia os sentidos, quando me oferece uma apaixonada rosa vermelha?
E onde iria buscar o ânimo de viver sem o verde da Esperança, isto para não falar do ultraje que seria privar Camões de colorir os seus campos, da cor do limão...
Os canários e os girassóis seriam de que cor se não existisse o amarelo? E de cor pintariam as crianças os sóis dos quadros de tantos pintores a haver?
Eu pertenço à geração que cresceu a assobiar o tema do Verão azul. O céu, o mar, os olhos da minha mãe, da minha borboleta azul, do meu pinguim... não, não posso prescindir do azul.
Eu sou natural de uma aldeia, reputada pela excelente qualidade das suas laranjas e tenho uma alma cheia de vitamina C. Além disso, sou de Portugal, que em árabe significa laranja, já que os árabes conheceram no nosso país ( e baptizaram em conformidade) essa sumarenta bola laranja que os nossos navegadores trouxeram do Oriente. Sem o laranja, de que cor pintar os meus mais sumos sentimentos?
E o rosa? O optimismo de quem vê tudo cor de rosa, os sonhos, o romance, a Edit Piaff e o seu La vie en rose? Ai, este hexalema deixou-me em branco e isso provoca-me pensamentos muito negros. Passemos ao heptalema, a ver se me volta a cor...

Heptalema – (Do gr. Heptá + lemme, «sete proposições» )
Pacífico é bom, é sereno e tranquiliza-nos. Mas o Atlântico é tão cheio de furor e semeado de Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde, São Tomé... O Atlântico tem o charme do príncipe. O enigmático Índico, com suas rotas de seda e canela e com uma bela Madagáscar plantada também é tentador. E que dizer do gelado Árctico, com a brancura meiga e sem mácula dos ursos polares, ou do Antárctico gémeo antípoda, onde vivem os primos do meu pinguim? Como prescindir do Mar Mediterrânico, tépido berço dos meus antepassados? Ou então do Mar do Norte, que tão melancolicamente Brel imortaliza no seu Plat Pays...
Um oceânico heptalema com solução à vista: equitativa distribuição de férias pelas praias do globo mundo. Assim, poderei lavar a alma, refrescar os pensamentos e mergulhar as recordações nos cinco oceanos e dois mares da minha predilecção. Sete mares, Sétima Legião – um heptalema promissor.

Octolema – (Do gr. Októ + lemme, «oito proposições» )
O octolema é um antro de pecados e pôs-me a cabeça em água, por causa do mar onde vive o tentacular polvo. Qual dos sete pecados capitais (mais o oitavo, da modernidade) devo aniquilar primeiro? Pensando bem, a ideia de usar um polvo para representar o mal do mundo é interessante...
No primeiro tentáculo, a Gula, pela boca morre o peixe; no segundo, a Preguiça, que prazer não cumprir um dever; no terceiro, a Ira, a pôr bombas na Irlanda há tantos anos; no quarto, a Soberba, a não dar a mão a quem mais precisa; no quinto, a Avareza, a roubar a grandeza do homem por causa do amor ao vil metal; no sexto, a Luxúria, a matar o amor em orgias de desamor; no sétimo, a Inveja, a roubar indecentemente a legítima cor à Esperança e, finalmente, no oitavo tentáculo, a Pressa, esse pecado da idade moderna, tão cheia de subterfúgios falaciosos que, ao invés de nos pouparem tempo, nos atiram para a loucura urbana de passar a vida em correrias, ignorando o pôr-do-sol. A Pressa é maligna e letal, porque nos rouba a vida enquanto fazemos absurdos planos e esforços para poupar tempo.
Em suma, um pôlvico e pecaminoso ramalhete. E qual dos pecados aniquilar primeiro? É, sem dúvida octolêmico... mas há que ter calma e bom senso. Sobretudo não incorrer no erro de tomar uma resolução ditada pela pressa.

Enealema – (Do gr. Ennéa + lemme, «nove proposições» )
Chegamos, finalmente ao enealema, mas esse é fácil. O leitor que se decida se prefere debater-se com
os simplistas monolemas,
os usuais dilemas,
os amalgamáveis trilemas,
os cardinais tetralemas,
os continentais pentalemas,
os coloridos hexalemas,
os oceânicos heptalemas,
os pecaminosos octolemas
ou o NADA, a súmula de tudo isto.

Já que, como nos dita a matemática lógica, na sua prova dos nove, NOVES FORA NADA...
(ou, como tão acertadamente um amigo sugeriu, talvez a minha condição de Pinguím da Neve permita usar a expressão personalizada "NEVES FORA NADA"... )
Seja como for, aconselho que a escolha seja ponderada, para que o pecado capital da modernidade, a Pressa, não se atrevesse no nosso caminho e nos transforme em seres vazios, que é como quem diz... em nada.



MN
Castelo de Paiva, 3 de Março de 2006


terça-feira, dezembro 12, 2006

Uma história de refúgio

Para ti, Pax, que foste a minha cor durante tanto tempo.

A cor do decoro (ou o ataque das Fúrias)

Fúrias - são três deusas vingadoras que punem os mortais. Vivem nas profundezas doHades, onde torturam as almas pecadoras. Alecto, a implacável, encarrega-se de castigar os delitos morais como a ira, a cólera e a soberba. Esta é a Fúria que espalha pestes e maldições;Megera personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme. Castiga principalmente os delitos contra o matrimónio, em especial a infidelidade. É a Fúria que persegue com a maior ferocidade, fazendo a vítima fugir eternamente. Tisífone, a vingadora dos assassinatos, é a Fúria que enlouquece a vítima.Como o castigo final dos crimes é um poder que não corresponde aos homens (por mais horríveis que sejam), estas três irmãs encarregavam-se do castigo dos criminosos, perseguindo-os incansavelmente até mesmo no mundo dos mortos, pois o seu campo de acção não tem limites. As Fúrias são convocadas pela maldição lançada por alguém que clama vingança. São deusas justas, porém implacáveis, e não se deixam abrandar por sacrifícios nem suplícios de nenhum tipo. Não levam em conta atenuantes e castigam toda a ofensa contra a sociedade e a natureza, como por exemplo, o perjúrio, a violação dos rituais de hospitalidade e, sobretudo, os assassinatos e crimes contra a família.As Fúrias são entidades divinas que personificam a vingança e punem os mortais. Ou seja, de uma forma pouco explicada, elas acompanham a nossa vida na sombra e intervém nela para nos castigarem. Embora a sua jurisdição diga respeito a crimes horríveis e de grande monta, confesso que sempre me questionei se não serão também da responsabilidade delas os pequenos impedimentos que nos atravancam a vida. Sempre que perdemos o comboio ou o carro fica sem gasolina, sempre que o Multibanco nos engole o cartão e não o podemos resgatar porque o banco está fechado e também não temos dinheiro para pagar a gasolina e como tal vamos a pé para casa, porque também não há táxis de borla, sempre que a criança adoece no dia em que temos aquela apresentação à qual não poderíamos faltar, sempre que temos um furo e também chove, claro, sempre que temos bateria no telemóvel e não temos saldo, sempre que temos saldo e ficamos sem bateria, sempre que temos saldo e bateria … e não temos rede, há quem ache que “são coisas que acontecem”. Mas não são! Pelo menos eu desconfio que não…Só quem não imagina ouvir a gargalhadinha vingativa das Fúrias é que poderá achar que estes contratempos são coisas do acaso.As leis de Murphy preconizam que “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”.A nossa vida quotidiana é isso, este lufa-lufa de correrias, sem tempo para nada, onde as Fúrias se vão divertindo a atropelar-nos com contratempos. Eu acho que as grandes vinganças dos crimes horrendos é o trabalho delas e os pequenos impedimentos que nos causam são a diversão com que ocupam os intervalos. E nós lá vamos vivendo, vendo a vida passar sem a vivermos de facto, tão inebriados nos problemazinhos e na busca de soluções para as rasteiras das Fúrias e na vã tentativa de fintar as inexoráveis inevitabilidades das leis de Murphy que nem tempo temos para apreciar a tranquilidade de um céu azul.Esse é o nosso decoro, a nossa vida cinzenta, sempre igual, sempre polvilhada de nós cegos, sempre gasta a tentar desatá-los.Para quem precise de respirar, sugere-se a cor. Um universo paralelo onde o mundo e a vida ficam umas horas à porta. Onde se é absolutamente feliz. Onde se recarregam baterias para enfrentar o cinzento decoro.A cor pode ser muita coisa, é basicamente a nossa vingança pessoal para com as pequeninas diversões das Fúrias e a nossa manifestação de desalento ao constatar a inevitabilidade à qual não podemos fugir. A nossa cor – o decoro não me permite entrar em grandes pormenores, já que cada um sabe de si – é, talvez, a forma de respirar dentro de uma vida sufocante. Lembro-me, por exemplo, de uma simpática francesa que fazia ricochete com pedras na superfície de um rio. E essa conhecia um velhote que obliterava folhas de loureiro. O meu vizinho do lado rasga papéis, jornais, folhetos e delicia-se com o trrrrrrrrrrrrtt tranquilizante. Enfim, cada um sabe de si. O que importa é que exista e que o seu colorido saiba refrear as Fúrias e paralisar, momentaneamente a fatalidade das leis do tal Murphy.

O que importa é que nos dê forças para enfrentar o cinzento da nossa vidinha.

Margarida Neves

Mira, 9 de Dezembro de 2006


domingo, dezembro 10, 2006

Uma história de atalho



Mais a direito


Uma senhora muito simpática, chamada Georgina, disse-me um dia, a propósito do seu nome que não era assim que as pessoas a tratavam. Na sua voz calma e arrastada, explicou:
- O meu nome é Georgina, mas as pessoas chamam-me “Jorzina”, que é mais a direito.
Esta frase, dita naquele belíssimo sotaque ribatejano – embora a senhora viva a sul do Tejo – nunca mais me saiu da cabeça.
Linguista amadora que sou, dou por mim muitas vezes a pensar estas particularidade da língua. Já nos meus tempos de contacto diário e directo com o crioulo de Cabo Verde, me fascinava com o princípio da parcimónia. Basicamente, trata-se do emprego da lei do menor esforço, transposta para o universo da articulação de uma língua. Por exemplo, de um rebuscado e quinhentista: “Vós quereis conhecer-me” atalhou-se, em crioulo, para um despachado e compactado “Bo kre konxe-m".
Há dias, o meu pai, leitor compulsivo, comentou que não conhecia uma palavra que aparecia no livro que andava a ler. – Deve ser uma palavra muito rara – pensei, conhecedora da amplitude lexical do leitor em causa. Tratava-se da palavra “Pâmpano”. Fomos logo procurar no dicionário para descobrirmos…

Pâmpano - s. m.
(bot.) ramo tenro de videira; parra;
(arq.) ornato que imita ramos de videira com parras e, às vezes, com uvas.
(Do lat. pampînu-, «ramo de videira»)

… que se tratava de um rebento terno de videira. – Ahh… - disse o meu pai – eu sempre chamei a isso “pompo”. Afinal, ele conhecia a palavra. Mas conhecia a sua versão mais a direito.
Da mesma forma, quando se vai à “Cambra” Municipal ou se fazem “Combros” a ladear terrenos de cultivo, vai-se mais a direito do que fazendo o esforço de articular as palavras Câmara e Cômoro.
Na minha terra, as fogueiras acendem-se por atalhos, com “fórfs” ou “fósfres”, já que o tempo gasto para dizer a palavra toda demora mais que um fósforo. E se não estiver frio e precisarmos apenas de luz, acendemos a “lampa”, que se for a lâmpada podia-se gastar mais.
Pelos atalhos do linguajar, fomos criando uma versão alternativa à língua oficial, a dos calhamaços, que no fundo, ninguém fala no seu estado puro. Seguindo o princípio da parcimónia, inventámos uma espécie de crioulo gandarez. Despachado e desenrascado como é, o gandarez não esteve com meias medidas e optou pela via mais fácil, a que dava menos trabalho: foi mais a direito.
Da mesma forma que os ribatejanos chamam “Jorzina” à D. Georgina, por todo o país existe uma versão alternativa e simplificada do léxico dos calhamaços. Dizia-me o meu amigo Andrea Santi, Italiano de Sienna a estudar em Coimbra, que o português que aprendeu em Itália era uma língua diferente da que os portugueses usavam. Para o confortar, expliquei-lhe a minha teoria. Ele aprendeu português, mas cá fala-se crioulo.



MN
Mira, 26 de Novembro de 2006

Uma história de desavença



Um casamento feito no céu

À Raquel, amiga de todas as minhas horas

Ela e ele nunca se entenderam. Embora ambos possam ser classificados pelos literatos como personagens redondas, tinham formas diferentes. Formas de ser, de oscilar, de rodar. Formas de coordenar tempo com movimento, formas, enfim, de circular no espaço reservado a cada um.
A incompatibilidade das formas era já suficiente para que eles não se entendessem, mas um outro factor mais cáustico, mais corrosivo, tornava qualquer hipótese de entendimento impossível: a incompatibilidade de horários. Ele rodava durante o dia, passeava a sua majestosa e redonda figura pelas luminosidades azuis ou cinzentas. Preferia as azuis e amuava nas cinzentas.
Ela era uma criatura da noite. A sua palidez denunciava essa escolha de vida, essa preferência pelos céus escuros, salpicados de estrelas e planetas.
Ela chegava quando ele partia. Ele chegava quando ela partia. Não é de espantar que nunca se tenham entendido! Arrastavam há séculos aquela relação, feita de desencontros permanentes, de silêncios contrariados, de lágrimas de chuva nele e chuva de estrelas nela.
Naquele dia, algo estalou dentro dele. De temperamento fogoso e impulsivo, decidiu, sem reflectir, retardar um pouco a sua entrada, para a apanhar na saída. Correu mal. Muito mal, mesmo. Discutiram, gritaram insultos, ou melhor, ele gritou, vermelho de fúria, enquanto ela apenas escutava, escondendo a mágoa atrás de um cínico sorriso amarelo, que ainda o enfureceu mais. A discussão, embora feia, durou pouco. O tempo urgia, ele tinha de entrar, ela tinha de sair. Da discussão apenas ficou a pairar no ar o clima gélido.
Foi por isso que naquele entardecer de Janeiro o Senhor Sol se pôs no mar, vermelhão de fúria e a Dona Lua surgiu no céu do crepúsculo, ainda de sorriso amarelo na sua cara de lua cheia. Mas ela não era de rancores e, pouco tempo depois, já se passeava redonda, branca, luminosa e bela pelo céu nocturno. Estava como nova.

Ah, claro, estávamos na lua cheia, mas para a história dar certo, ela devia ser nova.



MN
Ponte das Três Entradas, 26 de Janeiro de 2005

Uma história de amor



O troféu único


À Celeste, que sugeriu o final desta história.

Passavam poucos minutos das sete da manhã. Dentro do meu carro, estacionada nas traseiras da Universidade de Coimbra e protegida do frio agreste daquele Dezembro rigoroso, entretinha-me a observar os infelizes que andavam ao frio.
Era um Renault Clio branco, matrícula RX – 07 – 61 (tenho a mania de fixar as matrículas). Aproximou-se do meu carro e estacionou mesmo à minha frente. Tornou-se, imediatamente, o meu alvo predilecto de observação. Do Renault primorosamente, milimetricamente estacionado, saiu um homenzinho envolto numa gabardine vestida à pressa. O vento gelado logo lhe despenteou o cabelo e empurrou a porta do carro. Via-se que estava com dificuldades para reunir os objectos que estavam dentro do carro e que queria levar consigo. Depois de alguns momentos de luta com o vento, que agora lhe empurrava a gabardine, lá conseguiu vencer e fechou a porta do carro. Na mão direita, um pasta professoral que adivinhei repleta de papéis desorganizados, mas geniais. Por detrás dos óculos de lentes grossas, consegui vislumbrar um olhar simultaneamente distraído e inteligente. “Deve ser professor universitário de matemática”, calculei.
A justificar o meu palpite tinha dois indícios fortes: uma pasta transportada por um olhar distraído e um carro primorosamente, milimetricamente estacionado. Divertida, ocorreu-me que, naquele dia, as forças cósmicas pareciam estar conjugadas para me aproximar da matemática. Sendo linguista, tinha-me inscrito num curso livre de matemática, era por isso que estava em Coimbra naquela manhã, e o destino estacionou-me um matemático genial à minha frente!
Satisfeita com o resultado das minhas meditações e inferências e ainda distraída com a estranha coincidência cósmica que me empurrava para a matemática, levei alguns segundos a aperceber-me do objecto que o professorzinho transportava no braço esquerdo. Carinhosamente aninhado entre o peito e o braço, como se de um bebé se tratasse, trazia um troféu de prata.
Não me lembro bem, mas acho que respirei fundo, tal foi o meu espanto. A observação estava-me a correr bem, o meu alvo apresentara-se até então dentro de parâmetros coerentes, tinha conseguido atribuir-lhe uma profissão, baseada em indícios que, a meu ver eram fortíssimos e irrefutáveis. Estava-me tudo a correr tão bem... e agora isto! Um professor de matemática (o meu espírito já não tinha dúvidas), dirige-se a pé para a Universidade e transporta um troféu de prata ao colo numa fria manhã de gelo.
O troféu a precisar de colo era um elemento tão contrastante com o cenário que me contrariou profundamente. Confesso que fiquei levemente irritada e, para ver se me passava, fui tomar café, até porque o curso livre que ia frequentar começava daí a vinte minutos.

PAUSA PARA CAFÉ

O curso livre decorria na faculdade de medicina, numa sala cedida temporariamente à matemática. “É pena” pensei eu “se fosse na faculdade de matemática ainda me podia cruzar nos corredores com o maluquinho do troféu ao colo”. Quando entrei na sala, já havia poucos lugares vagos e concentrei-me a procurar um espaço que me agradasse. Só depois de sentada observei a mesa do professor. Tive vontade de me beliscar para acordar daquele sonho. O troféu mimado estava ali, à minha frente, em cima da mesa do professor! E pior, o professor não era o meu maluquinho, mas um jovem Deus grego, moreno de olhos verdes. Só podia mesmo ser um sonho. O homem dos meus sonhos e o símbolo da vitória. Mas vitória de quê?
Decidi acordar no momento em que o jovem de olhos verdes começava a falar. Ele era um assistente, responsável pela organização do curso livre e tinha convidado para a primeira aula um eminente conferencista, muito conceituado no mundo da matemática por ter descoberto um teorema cujo nome me escapa. Pediu palmas quando o conferencista entrou e era ele, o do troféu. Comecei a ficar mais contente. Estava provado que as minhas deduções estavam certas e, com sorte, talvez se explicasse a presença daquele intrigante troféu.
No meu estágio pedagógico, ouvi falar e comecei a por em prática uma coisa chamada “motivação de aula” que é uma espécie de isco para prender a atenção do aluno e entusiasmá-lo para o assunto a ser abordado. Assim que o conferencista começou a falar, percebi que o troféu era um isco.
Tinha sido o prémio ganho nas olimpíadas mundiais de matemática. Era a prova de um amor de toda a vida, de um sonho concretizado. Agora já se percebia o colo, o mimo, o cuidado.
Então, alguém no fundo da sala perguntou ao conferencista quantos tinham sido os participantes dessas olimpíadas. Ele não respondeu logo. Sorriu e fitou-nos com aqueles olhos distraídos, mas cheios de inteligência. Por momentos pareceu viajar no tempo, imerso nas suas recordações. Depois, explicou-nos que ele tinha sido o único participante nas olimpíadas, porque já não tinha ninguém que se igualasse a ele. O troféu era dele, já que ele era o único a apresentar um teorema. Mas para ele, era como se tivesse vencido cem participantes. Porque mais do que a concorrência ou a competição, interessava-lhe a sua entrega à matemática e aquele troféu lembrava-lhe todos os dias que vale a pena trabalhar e investir num sonho, mesmo quando a única mente com a qual se compete é a nossa.
Se o troféu significava tudo isso para ele, então era justo que o trouxesse ao colo. Afinal é a um filho que nos dedicamos todos os dias e não competimos com ninguém pelo amor dele. E trazemo-lo ao colo.


MN
Início: Ramalheiro, Janeiro de 2005
Fim: Castelo de Paiva, 6 de Fevereiro de 2006